jun
4
2012

Máxima eficiência energética é a meta dos data centers brasileiros

O protótipo do data center do futuro ainda não cabe no bolso, mas tem metragem quadrada reduzida, consolidação de máquinas e densidade de processamento. É o que estima o instituto de pesquisas Gartner. Segundo ele, os mais atuais têm 400% a mais de capacidade, usando 60% a menos de espaço  e estão cada vez mais modulares, pequenos e construídos por zonas [múltiplas camadas] e escaláveis verticalmente.

Em contrapartida, deverão gerar mais calor e, portanto, consumirão mais energia. O grande desafio dessa nova geração dos centros de dados será construir estratégias em busca da eficiência energética.

Henrique Cecci, diretor de Pesquisas do Gartner, aponta a refrigeração como grande vilã. “Ela representa, hoje, 50% do consumo energético de um data center. Considerando que o custo de energia cresce em torno de 15% a 20% ao ano, encontrar a fórmula para o equilíbrio é vital”, aponta.

O consumo de energia por metro quadrado será maior, em razão da concentração do volume do processamento. Sendo assim, será necessário ter esse processo estruturado, afirma Bruno Arrial dos Anjos, analista sênior de Mercado da Frost & Sullivan.

Segundo Cecci, o mais importante é medir a eficiência e estabelecer metas. Para essa medição, de acordo com o executivo, existe o Power Usage Effectiveness (PUE), índice que avalia a eficiência energética de um data center, e indica se houve consumo em equilíbrio com o que foi gerado.

Criado pelo Green Grid, uma organização norte-americana sem fins lucrativos, dedicada a promover a eficiência dos recursos no data center, o PUE é a razão entre a potência total consumida pela instalação de TI – refrigeração, iluminação etc – dividida pela eletricidade consumida pelos equipamentos de tecnologia. O melhor PUE é o mais próximo possível de 1.0.

“Minha primeira recomendação para os CIOs é realizar uma avaliação do data center para quantificar o que o uso de energia significa para a companhia”, diz John Tucillo, presidente e chairman do conselho do Green Grid. “Você não precisa ser sofisticado para quantificar o consumo de energia básica. Compreender o PUE pode fornecer uma perspectiva sobre como você pode ser mais eficiente”, completa.

Como medir o Pue

Em muitos países, essa equação precisa ser aprimorada. A média no Brasil é 2.4, enquanto nos Estados Unidos e Europa o PUE está entre 1.4 e 1.5. “No Facebook, por exemplo, o índice é 1.07”, garante Ray Paquet, vice-presidente administrativo do Gartner, que esteve pessoalmente no data center, localizado em Washington, nos Estados Unidos.

Hugo Zanon Junior, diretor da Terremak, diz que existem muitas formas de medir o PUE. “No site [Data center  Dinamics], tem pelo menos quatro critérios, então é difícil contratar os data centers por meio do PUE”, avisa. Ele explica: “Se dois provedores tiverem PUE diferentes, aquele que tem o maior, terá preço maior. O que possuir PUE mais baixo, terá uma margem maior, e, portanto, preço menor”.

Zanon aponta que o índice varia em função do tipo de data center. Nos de outsourcing ou de e-commerce, prossegue, é possível otimizar a arquitetura e então alcançar ótimo PUE. “Conforme o data center expande, as últimas salas têm desempenho melhor do que as outras. No nosso caso, se fizéssemos uma radiografia, teríamos vários PUEs”, relata e avisa: “Não divulgamos nossa média de PUE”.

Cecci diz que hoje já existem data centers no Brasil até mais eficientes que 1.6 e 1.8. “Mas acho que ainda vamos percorrer cerca de dois anos para alcançarmos média de 1.6. E, depois disso, poderemos atingir 1.3.”

“Fomos à Europa, Estados Unidos e Ásia para entender as melhores práticas de construção de data center e isso nos ajudou bastante. Optamos por Liquid Cooling Package (LCP), um rack climatizado, por água gelada, próprio para ambientes de alta densidade, com blade, virtualização”, diz Alexandre Siffert, presidente da Ativas.

Siffert comenta que com a densidade, o calor aumentou muito. “Há dez anos, o consumo por metro quadrado no data center era de 500 watts, hoje são 3 mil watts.” Mas com o LCP, da fabricante alemã, Rittal, a empresa pretende atingir PUE de 1.7.

Outro ponto de vantagem da Ativas é ter a concessionária mineira Cemig como acionista. “Sendo assim, somos providos por duas estações de energia distintas, e isso nos proporciona tranquilidade em relação à continuidade”, aponta.

É preciso estar atento às tendências, entende Siffert. “Há três anos, participo da conferência do Gartner, nos Estados Unidos, junto com nossos acionistas para termos certeza de que estamos no caminho certo. Precisamos saber o que o mundo está pensando e querendo. É nossa bússola”, afirma.

A Level 3 prepara-se para ter a energia do futuro. É o que revela Vagner Moraes, diretor da unidade de Data Center da empresa. “Estamos construindo nossa subestação. Vamos transformar a energia de alta tensão [138 mil Megawatts] para a tensão da Eletropaulo, que é de 13 mil Megawatts. Dessa forma, proporcionando capacidade de transformação de energia até 20 Megawatts”, explica.

Com esse investimento, a empresa vai garantir o funcionamento estável da rede de energia e a consequente disponibilidade. “O data center e a rede de alta tensão mantêm-se a uma distância de um quilômetro. E por estarmos nos domínios da Eletropaulo, todo o cabeamento instalado será doado para uso da concessionária”, diz o executivo, acrescentando que a obra teve início no final do ano passado e deverá estar concluída no início de 2013.

Contingência

A modernização do data center da Sonda IT, que inclui construção alinhada ao conceito de Green IT, recursos para eficiência e contingência enérgica e perenidade da estrutura, consumiu cerca de 50% do investimento na operação. É o que afirma Ricardo Barone, vice-presidente da unidade de Serviços de TI da Sonda IT.

O executivo destaca que o sistema de ar-condicionado é a gás, granular e inteligente. “Os equipamentos se revezam, de acordo com a leitura da temperatura do ambiente, o que gera economia significante. O importante é que focamos na melhor plataforma tecnológica e de climatização para nos tornarmos mais competitivos”, diz.

Ele dá a dica: “Em ambientes de alta densidade, é vital o gerenciamento ativo da ocupação, otimizando a operação com a eliminação da ociosidade dos equipamentos e desligando os que já não são mais necessários”.

A iniciativa com maior nível de eficiência energética é o cloud computing, na análise de Marcelo Safatle, diretor-executivo da Hostlocation. A organização, segundo ele, aumentou sensivelmente a densidade com virtualização de servidores e no último ano obteve economia de 66% de energia.

O executivo aposta ainda na evolução da indústria, que tem colocado no mercado máquinas que suportam temperaturas mais elevadas, capazes de baixar muito os gastos com refrigeração. “Trabalhar com dois ou três graus acima pode representar significativa economia. Se eu tenho consumo de 1 KVA [Kilo Volt Amperes] por equipamento, tenho de reservar o mesmo para refrigerá-lo”, diz Safatle, que no momento está modernizando a plataforma com servidores blade.

José Geraldo Coscelli, COO da Globalweb Outsourcing, equaliza os gastos energéticos com operação no Brasil e também nos Estados Unidos. “O custo do KVA daqui é mais alto do que o norte-americano. Dessa forma, consigo oferecer melhor eficiência ao cliente.”

Ele diz que a estratégia da empresa está pautada em soluções baseadas em cloud, virtualização e servidores blade. “Procuramos otimizar ao máximo o ambiente para ter um menor gasto energético”, afirma.

Na Locaweb, o momento é de avaliação. Estudam a possibilidade de cogeração de energia com gás natural, por meio de geradores, aproveitando resíduos para gerar ar frio. E ainda free cooling, que é basicamente usar o ar para resfriamento. “Mas podemos ter a combinação dessas duas alternativas”, revela Marco Fonseca, gerente de Operações da empresa.

A meta da companhia é obter economia de cerca de 30% com energia. “Estamos expandindo, tornando nosso ambiente de alta densidade e, portanto, é fundamental a modernização do sistema de climatização”, explica.

O executivo gaba-se do PUE de 1.6, que foi conquistado, segundo ele, sem muito esforço tecnológico, pois a chave está na combinação de planejamento, tecnologia e criatividade. “É uma questão de melhor distribuição dos servidores, aliada ao confinamento do ar quente. Nenhuma reinvenção da roda”, brinca.

Armando Amaral, diretor de Operações, Engenharia e Infraestrutura da UOL Diveo conta que já na construção do data center, o projeto previu uma arquitetura que favorecesse a eficiência energética. “Porque depois de construído, fica muito complicado implementar um projeto moderno de refrigeração”, avisa.

O PUE de 1.6 [com data center cheio] foi conquistado graças à virtualização, software de gerenciamento de energia, sistema de refrigeração com corredores de ar quente e frio, piso elevado, máquinas modernas de ar-condicionado e recurso de vaporização do ambiente. “A meta é reduzi-lo com o novo sistema de climatização que estamos avaliando e também soluções de cloud.”

Fabiano Droguetti, diretor de Soluções e Tecnologia da Tivit, também concorda ser uma vantagem importante já incluir no planejamento do data center características que promovam eficiência energética. “Nosso sistema de refrigeração é composto por um tanque de água gelada. Se quiséssemos implementá-lo depois, seria uma tarefa complicada”, diz.

Impulso da nuvem

O executivo destaca que um dos grandes apoios para a redução do consumo de energia é cloud computing, que, segundo ele, otimiza a produção de TI por metro quadrado do data center. “Mais de 20% de todos os nossos serviços são prestados por meio de uma plataforma virtualizada, minimizando a dissipação de calor e a necessidade de resfriar servidores.”

Medir o PUE é uma tarefa realizada três vezes ao dia na Logica, afirma Gilberto Encinas, gerente de Data Center da corporação. Em fase de expansão, com estimativa de dobrar a capacidade, o sistema de refrigeração inclui corredores de ar quente e frio, com ar-condicionado. “Mas estamos avaliando o uso do conceito de
Rack cooling e Row cooling para aumentar nossa eficiência. Temos índice de 1.6 e com a atualização pretendemos baixá-lo”, afirma.

“Hoje, olho para a infraestrutura energética com lupa. A preocupação é muito maior. Trata-se de um investimento significativo e fundamental para o negócio”, revela Flávio Duarte, executivo de Serviços da IBM.

A empresa usa em seus racks porta de troca de calor refrigerada a água. Ela pode retirar até 27 KVA de um rack. “Considerando que eles consomem 27 KVA, temos essa equação zerada e a eficiência aumentada”, diz o executivo.

O PUE da IBM está perto de 2.0, mas o objetivo é cair bastante esse índice, segundo Duarte. A IBM vem buscando redução de custos operacionais para se tornar mais competitiva e a eficiência energética ajuda nessa meta. Soma-se a essa estratégia o forte investimento em virtualização, consolidação e gerenciamento eficiente. “Tudo isso gerou para a IBM na última década uma economia de 1 bilhão de dólares.”

A Alog optou por um projeto que alia a eficiência de energia às características de ocupação do seu data center. “Nosso sistema é modular, composto de equipamentos de alta eficiência energética, com apoio de corredores de ar quente e frio, usando técnica de confinamento e também sistema de climatização a água. E no data center de Tamboré, com ocupação total, nosso PUE deverá variar entre 1.6 e 1.7”, relata Peter Catta Preta, diretor de Infraestrutura da Alog.

A estratégia da HP tem como base três pilares. Desenvolvimento de uma nova geração de infraestrutura que consome menor quantidade de energia, usando na arquitetura os servidores ProLiant Gen8, que, segundo o diretor de Marketing da área de servidores, Alexandre Kazuki, “são totalmente automatizados e de baixíssimo consumo de energia”. Consultoria e projetos para a construção de data centers de última geração que conseguem utilizar de forma otimizada os recursos de energia e refrigeração. “E ainda a criação de software de gerenciamento que permitem maior inteligência dos servidores.”

A busca por resfriamento ideal promete esquentar. Todos querem tornar seus ambientes altamente eficientes com consumo menor de energia e um PUE cada vez mais próximo de 1.0. De acordo com consultores, o mais importante nessa arena, é que o mercado nacional está borbulhando, atraindo a atenção internacional e, o que é mais valioso, se tornando mais amadurecido e profissional. Aguarde.

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Fonte: Originalmente publicado por ComputerWorld em 04 de junho de 2012 – 07h30