jul
2
2012

Consumerização: o avanço do inevitável

Tema debatido em todo o canto no mundo corporativo, a consumerização, caracterizada pelo uso de dispositivos móveis pessoais no ambiente de trabalho, foi brotando no dia a dia, meio que despercebida, e quando se fez notar, já estava instaurada, e, ao que tudo indica, na avaliação de consultores, pintou um quadro que não tem volta.

Na verdade, ela foi impulsionada por um mix de fatores: febre da mobilidade, facilidade de aquisição de novas tecnologias e o ingresso de uma população jovem no mercado de trabalho, que, aficionada por novas tecnologias, não larga delas e não se contenta em trabalhar com recursos menos potentes e atraentes quanto os seus.

Fernando Belfort, analista sênior de Mercado da Frost & Sullivan, pinça alguns benefícios desse novo cenário, como satisfação dos funcionários, mais eficiência, redução de custos e flexibilidade. “Ao utilizar seus próprios aparelhos para trabalhar, a satisfação aumenta, acarretando em um melhor ambiente de trabalho, sem contar que eles podem trabalhar de qualquer lugar”, diz.

Para ele, outras tendências irão catalisar a adoção de consumerização como amplo acesso à internet de alta velocidade gratuita, estimulando ainda mais o uso de devices. “O aumento das aplicações na nuvem fará com que aparelhos móveis tenham funcionalidades semelhantes a de desktops. Além disso, o crescimento exponencial do mercado de aplicativos trará inúmeras funcionalidades adicionais aos aparelhos móveis”, diz, acrescentando que a consumerização fará com que empresas de segurança desenvolvam soluções de Mobile Device Management (MDM), para gerenciamento de dispositivos móveis, cada vez mais completas e robustas.

“Quando falamos em consumerização, não estamos tratando somente de devices pessoais como tablets e smartphones, que normalmente levamos para o trabalho. É um pouco mais além disso. Abrange o comportamento das pessoas em relação às redes sociais, por exemplo. Como o funcionário se porta no ambiente de trabalho e fora dele”, alerta Carlos Eduardo Calegari, analista de Software da consultoria IDC no Brasil.

Diz respeito também, segundo ele, à linha que está cada vez mais tênue entre o tempo de trabalho e o tempo pessoal. Observamos que antigamente era muito bem definido o período em que o indivíduo estava trabalhando e quando se dedicava às atividades pessoais.

Hoje, prossegue, o funcionário acessa uma rede social, continua olhando seus e-mails corporativos, respondendo, e, portanto, permanece trabalhando. “Ou seja, as duas atividades são realizadas de forma intercalada, não mais são divididas. É, claramente, uma mudança de comportamento que também temos de atrelar à consumerização.”

O analista destaca que o fato de a IDC liberar o uso de redes sociais no ambiente corporativo é muito importante para o desenvolvimento do seu trabalho. Mas essa abertura aconteceu ao longo dos últimos dois anos, quando todo o cenário foi impactado.

“Ao levar seu dispositivo para o trabalho, porque assim desempenha melhor suas funções, o funcionário cria uma pressão sobre quem cuida da infraestrutura da empresa, ou seja, o CIO. Joga para ele toda essa responsabilidade”, avisa.

Tanto a mobilidade quanto o gosto pelas novas tecnologias impulsionaram a consumerização, de acordo com Calegari. As redes sociais, que viraram febre e vício, também impactaram, segundo ele, e transformaram o perfil do profissional atual, que não mais retém o conhecimento e sim o armazena em algum lugar.

Não por acaso, diante dessa movimentação, o Brasil está em segundo lugar em aceitação da consumerização, de acordo com o estudo global “Dissipando seis mitos sobre Consumerização de TI”, encomendado pela Avanade à Wakefield Research, realizado no final do ano passado, em 17 países, localizados na América do Norte, América do Sul, Europa e Ásia Pacífico. Está à frente de muitos países europeus e até mesmo dos Estados Unidos.

Divulgada no início deste ano, a pesquisa envolveu mais de 600 executivos e líderes de TI de empresas de pequeno e grande portes de setores como aeroespacial, defesa, energia, serviços financeiros, governo, saúde, logística, manufatura e telecomunicações. Em solo nacional, os entrevistados responderam que quase todos os seus funcionários (97%) já utilizam suas tecnologias computacionais no ambiente de trabalho, posicionando o País na segunda colocação para essa prática no mundo (veja quadro). Além disso, baseado no contexto atual, 67% mudaram as suas políticas para melhor atender ao uso de tecnologias pessoais no universo corporativo.

Globalmente, 88% dos executivos entrevistados disseram que os seus colaboradores já estão utilizando equipamentos próprios para fins profissionais. Diante desse cenário, o levantamento aponta que investimentos significativos em TI estão sendo feitos para gerenciar essa tendência. Na média, as empresas estão alocando 25% de seu orçamento geral de TI para gerenciar a consumerização e 60% das organizações estão adaptando a infraestrutura de TI para receber tecnologias pessoais dos funcionários.

Na terceira onda

O mundo vive a terceira onda de tecnologia, afirma Luciano Crippa, gerente de Pesquisas da IDC. “A movimentação de levar dispositivos pessoais para uso no ambiente corporativo não é nova, mas a pressão dos usuários para ampliar sua aceitação aumentou”, resume.

De acordo com Crippa, até pouco tempo o CIO conhecia a tecnologia, entendia sua aplicação nos negócios e a levava para dentro de casa. Agora, o quadro mudou. “O funcionário passa a inserir a TI na empresa com o objetivo de tornar o dia a dia mais produtivo”, aponta. “O usuário foi promovido a CIO e cada um tem seu microambiente tecnológico”, brinca.

Pesquisa global da IDC com cerca de 3 mil profissionais de nove países [Estados Unidos, Brasil, Alemanha, França, Reino Unido, Bélgica, Holanda, Austrália e Nova Zelândia] indica que em 2010, 30,7% dos dispositivos que circulavam na organização e acessavam a rede eram pessoais e 69,3% corporativos. Em 2011, os pessoais saltaram para 40,7%.

Na América Latina, aponta o levantamento, 43% dos profissionais estão autorizados a acessar dados da empresa, seja e-mail ou qualquer outro tipo de aplicação, por meio de aparelhos pessoais.

“Cada vez mais os executivos vão migrar do simples uso do correio eletrônico para BI, CRM e ERP, fazendo com que esse número cresça”, projeta. Em 2016, a consultoria estima que mais de 50 milhões de smartphones serão vendidos no Brasil o que reforça a ideia de que consumerização será uma realidade.

Apesar disso, poucas organizações [de variados setores] desenvolvem políticas para regular o uso ou então liberam a utilização dos dispositivos. Parte desse bloqueio acontece porque a TI, muitas vezes, não tem real dimensão do que os funcionários usam. A constatação é de um estudo divulgado no ano passado, conduzido pela IDC, a pedido da Unisys, que ouviu 3 mil profissionais em todo o mundo, divididos em dois grupos: aqueles que estão na TI e os adeptos da consumerização.

Identificou-se que TI acredita que 34% da força de trabalho usa devices pessoais na empresa. Enquanto isso, 69% dos profissionais disseram que têm acesso a dispositivos inteligentes na organização. Segundo o levantamento, o CIO está reativo, mas o primeiro passo para mudar essa postura é ter uma visão 360 graus das tecnologias presentes na empresa.

Crippa diz que o mercado, e especialmente a mão de obra, está mudando mais rápido e a inflexibilidade para aceitar esse universo é um risco. “É preciso tirar proveito e envolver os executivos de negócios. O custo de perder oportunidades pode ser alto”, alerta.

Mas, assim como qualquer conceito emergente, alguns gargalos e preocupações são identificados, observa, como compliance, segurança, custo e cultura. “Questões não resolvidas podem frear a adoção, como quem é o responsável pela segurança e privacidade dos dados? E se o usuário tiver uma aplicação pirata no aparelho, de quem é a responsabilidade?”.

Para lidar com a consumerização, Crippa aconselha que as organizações invistam em tecnologias ou serviços que possibilitem segurança nos dispositivos, virtualização de desktops para permitir o acesso das informações em qualquer device, backup online e gerenciamento centralizado.

A criação de políticas também faz parte da lista. “É necessário estabelecer quem pode acessar a rede e as informações corporativas por meio de aparelhos pessoais, quais dispositivos estão habilitados etc”, recomenda. De acordo com ele, também é importante que os usuários concordem com a criptografia de dados, estabelecimento de senhas fortes e autotravamento do aparelho, bloqueamento remoto, monitoramento, acordo de suporte, entre outros.

Ao criar um ambiente em que a consumerização é permitida e gerenciada de forma adequada, Crippa afirma que diversos benefícios podem ser conquistados. “Contratar e reter melhores talentos, registrar menores custos para entregar acesso à rede corporativa, aumento da vantagem competitiva, espalhar a inovação pela companhia e atender às mudanças nas preferências dos funcionários são alguns”, detalha.

A pesquisa global, encomendada pela Unisys, também apontou que as empresas estão adotando novas tecnologias mais lentamente do que seus funcionários imaginam. O estudo ouviu 306 iWorkers (funcionários que utilizam as tecnologias da informação como parte de seu dia a dia), residentes no País e 101 executivos de TI de diversas organizações localizadas nas principais cidades do Brasil.

De acordo com Calegari, da IDC, o resultado não causa espanto porque o acesso à tecnologia e à informação é mais fácil hoje. “O consumidor sabe muito rapidamente sobre todas as novidades em tecnologia, ao mesmo tempo em que ela é lançada. Toma a decisão e compra imediatamente. Já a empresa tem de passar por planejamento, avaliações e aprovações até concluir a aquisição.”

Belfort, da Frost & Sullivan, concorda e acrescenta que a concorrência para aquisição entre o usuário e a empresa é desleal porque na companhia há todo um processo a ser formalizado antes da compra. “O usuário é o CFO, o CIO e o CEO dele mesmo… essa é a vantagem”, compara, lembrando que um agravante nessa questão são os acordos globais que também dificultam e atrasam muito a aquisição de novas tecnologias em todas as unidades espalhadas pelo mundo.

De acordo com os resultados da pesquisa, 11% dos funcionários brasileiros entrevistados disseram que as empresas em que trabalham adotam novas tecnologias – como smartphones, iPhones, netbooks e até mesmo aplicações de redes sociais – em seu cotidiano relativamente cedo, isto é, logo que as tecnologias são lançadas. No entanto, apenas 2% das organizações consultadas no Brasil afirmam tomar essa medida tão rapidamente.

O levantamento indica que, na realidade, 41% das companhias em solo nacional afirmam que adotam novas tecnologias bem tarde, ou seja, depois que elas já estão consolidadas no mercado. Porém, apenas 10% dos trabalhadores acreditam que as organizações em que atuam demorem tanto para implementar novas tecnologias.

Ainda assim, a pesquisa revela que, em comparação com a média global – ou seja, com os outros oito países consultados – as empresas brasileiras adotam tecnologias mais rapidamente que as no exterior. Quase 30% das organizações no Brasil tomam essa medida em um prazo razoável, enquanto a média global é de 21%.

Tragam dispositivos pessoais!
De acordo com consultores, Bring Your Own Device (BYOD), ou seja, “traga seu próprio dispositivo móvel” não pode ser considerado como “consumerização” em sua mais pura definição, como também não é uma evolução do fenômeno. Trata-se, afirmam, de uma reação das empresas, diante do avanço da consumerização, para obter o controle.

“É um quebra-galho”, sentencia Calegari. “Uma maneira de satisfazer momentaneamente uma necessidade do profissional. Mas as empresas ainda não têm claramente definidas quais políticas de segurança devem aplicar. Não sabem qual caminho irão tomar.”

O analista avalia que lá fora já avançaram um pouco mais em BYOD, contudo, ainda falta muito a ser feito. “Ainda estão estudando, pois há muita pressão pelo controle total do equipamento pessoal e essa não é a estratégia mais adequada, porque não vai satisfazer o usuário”, alerta.

Já existem vários recursos que podem ajudar no gerenciamento da consumerização, entretanto ainda não se popularizaram, de acordo com Calegari. “Estão começando a ganhar espaço por meio de empresas preocupadas com o avanço frenético da consumerização e a crescente e premente necessidade de controle desses dispositivos pessoais.”

Calegari levanta algumas questões que estão assombrando os CIOs [Saiba mais em O que os CIOs pensam sobre BYOD, nesta edição, na CIO]: “Quanto terei de mexer na infraestrutura? Quanto terá de ser investido? Qual é a relação custo/benefício?”

A saída, aponta Calegari, pode vir do cloud computing. “As operadoras e os data centers já estão oferecendo inúmeros serviços de infraestrutura na nuvem, o que pode ser mais viável e barato. Acredito que esse gerenciamento será oferecido e também será mais seguro.”

A TI está aceitando e, em alguns casos, adotando o BYOD como realidade na empresa. É o que mostra o estudo IBSG Horizons, da Cisco, com base em entrevistas com 600 líderes de TI e de negócios dos EUA. A pesquisa, que acaba de ser divulgada, também mostra alguns dos benefícios quantificáveis e as complexidades associadas à permissão do uso de dispositivos móveis pessoais de funcionários nas redes corporativas.

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Fonte: Originalmente publicado por ComputerWorld em 02 de julho de 2012 – 07h30