dez
19
2011

Quando Cloud Computing é imperativo

Adotar cloud computing não é mais uma questão de sim ou não. Trata-se agora de quando e como. Ainda que o ceticismo ronde as decisões, estudos revelam que executivos de TI já compraram a ideia de usar o conceito. Pesam na balança se aplicações de missão crítica devem ir para a nuvem, o modelo a ser adotado [se público ou privado], a segurança da informação, a gestão fora de casa, a precária infraestrutura de telecomunicações do País, e outros fatores em discussão, próprios de desenhos tecnológicos em amadurecimento.

Na visão de CIOs de empresas atuantes em variados setores da economia, entrevistados para esta reportagem, ingressar no mundo da computação em nuvem com confiança depende da estratégia traçada por cada uma das companhias, do seu tipo de negócio e do planejamento. Todos eles têm em mente que com a aplicação na nuvem e a estratégia na mão, é possível colher bons frutos.

Na Andrade Gutierrez, esse tema não é novidade. Cibele Fonseca, gerente de TI da construtora, diz que o ingresso em nuvem privada por lá aconteceu há cinco anos. Segundo ela, todas as obras acessam ambientes críticos da companhia [entre eles produção e ERP] por meio de cloud. “E estamos estudando a migração de operações de homologação e teste para o modelo público, para eliminarmos os gastos com infraestrutura para esses ambientes”, diz. A gerente entende que o modelo privado é o melhor caminho para chegar ao público. “Ganhamos experiência interna, fazendo testes, para colocar na nuvem pública alguns ambientes que não sejam críticos.”

O conceito também já é velho conhecido na empresa de transportes Águia Branca. É usado desde 2006. Como é um grupo composto por quatro unidades de negócios distintos [logística, comércio, transporte de passageiros rodoviários e transporte de passageiros aéreos], dependendo da área de atuação de cada companhia, o modelo pode ser público ou privado. “A TI fornece serviços e soluções para cada uma das unidades do grupo. Administramos cerca de 60 projetos ao longo do ano. Para facilitar a entrega, criamos uma cloud privada para atender aos clientes internos. Todos os sistemas e serviços são acessados por meio dela, de qualquer lugar”, diz Aldo Zuquini Júnior, gerente de TI da Águia Branca.

A nuvem pública é usada pelo grupo, na empresa de transporte aéreo Trip. Lá, todas as aplicações de missão crítica estão em cloud, rodando em data center baseado em Dallas, nos Estados Unidos. “Venda de bilhetes, controle de disponibilidade de assentos, operações comerciais, preços, valores, tarifas, tudo isso está na nuvem”, garante o executivo. Mas, segundo ele, as duas nuvens [privada e pública] não se comunicam. A integração entre elas, porém, não está fora dos planos, formando um modelo híbrido. “Pode acontecer, para facilitar uma série de processos. Mas vamos estudar.”

Missão crítica na nuvem pública também não é impedimento para a TAM. Todo o negócio está nesse modelo. Para Marcos Roberto Teixeira, diretor de TI da companhia aérea, cloud mudou radicalmente a forma de entregar e de adquirir serviços e soluções de TI na empresa. “Em um mercado como o nosso, tempo é altamente crítico e a cloud nos dá a agilidade de que necessitamos”, destaca, acrescentando que há dois anos, toda a plataforma de reserva de passagens, vendas, atendimento e check-in migrou para o modelo de software como serviço (SaaS).

Teixeira faz questão de ressaltar a tranquilidade que o modelo proporciona em ocasiões nevrálgicas como em campanhas de promoção de passagens, que poderia ser o caos se tivessem de lidar com expansão de infraestrutura interna para atender à alta demanda. “E depois ficar com ela ociosa em momentos fora do pico”, diz. O executivo da TAM não tem dúvidas de que a nuvem está no centro da estratégia, que possibilita administrar o transporte de mais de 34 milhões de passageiros por ano, que se distribuem pelos mais de 900 voos realizados diariamente pela companhia.

Bruno Arrial dos Anjos, analista sênior de mercado da IDC Brasil, divulga que em estudo realizado pela consultoria com 110 empresas de grande porte, em 2010, entre as que já usavam algum tipo de solução na nuvem, 86% aderiram à modalidade de software como serviço (SaaS). Entre os aplicativos campeões de audiência estão e-mail, CRM e ERP. Este último é usado no modelo SaaS há sete anos pela companhia de energia Guascor. Os seus cinco maiores fornecedores oferecem ao menos um serviço de cloud no modelo SaaS, segundo Eduardo Vargas, gerente de TI da empresa. “Cloud amadureceu muito neste último ano. E somos exemplo de usuários de uma aplicação de missão crítica na nuvem. E recentemente migramos para a cloud a base de e-mails e servidores de colaboração”, afirma.

Além de todas as atividades na nuvem, o fato de não ter de investir em infraestrutura, e não mais se preocupar com atualizações e gestão, liberou o executivo para atividades mais nobres. “Desliguei-me da evolução tecnológica da infraestrutura. Hoje, nossas reuniões não descem mais a detalhes da tecnologia. Elas passaram a ser mais estratégicas, focadas no business”, relata.

Fernando Birman, diretor de Sistemas da Informação para América Latina da Rhodia, e Cibele, da Andrade Gutierrez, também destacam a vantagem proporcionada pela nuvem de dedicarem-se mais ao business do que a questões básicas de tecnologia. Eles acreditam que o conceito também impulsiona projetos de TI, visto que ao não ter de investir em infraestrutura e atualizações, podem direcionar esforços para novas iniciativas da companhia, que favoreçam resultados de negócios.

O fantasma da insegurança

O ERP roda na cloud, em data center no sul da Califórnia, nos Estados Unidos, diz José Pereira Brito, CIO do Mackenzie, para quem a nuvem já figura na estratégia da instituição de ensino há 12 anos, na modalidade SaaS. “Em 2003, colocamos todos os colégios na web, os alunos entraram na era virtual, logo depois colocamos toda a universidade em cloud privada, mas temos algumas aplicações acadêmicas na pública”, diz. “Hoje, vivenciamos o conceito de Todos 100% na web. Os alunos têm acesso às bibliotecas digitais, de qualquer lugar, e uma série de outras facilidades”, acrescenta.

Mas nem tudo está definido em relação ao conceito. Para Brito, ainda é necessário o amadurecimento. O Mackenzie também precisa avaliar a expansão do uso no modelo público. Ele acredita que essa modalidade irá crescer muito, à medida que forem resolvidas questões relacionadas à legislação, segurança e infraestrutura nacional de telecomunicações. “Existem aplicações como ensino a distância que irão impulsionar o uso em nosso segmento e vamos expandi-las, alocando parte aqui e parte lá fora”, pontua. “Se eu fosse fornecedor de cloud, ao fazer uma oferta, já traria boas respostas para questões mais críticas, como as referentes à legislação, contingência, entre outras”, sugere Brito. “Além disso, o problema da infraestrutura precária de telecomunicações, que não oferece garantias de disponibilidade, contribui para agravar a insegurança”, afirma.

Cibele aponta outras preocupações recorrentes. Em sua avaliação, não basta um bom contrato com o fornecedor para ter total confiança. “Como os serviços serão geridos? Com quem será compartilhado o ambiente? Onde ficarão as informações? Como será a metodologia de segurança do ambiente contratado?” Tudo isso precisa ser considerado.

Há realmente grande preocupação com a segurança, especialmente em empresas em que a privacidade é crítica para o negócio, diz Birman. “Nesse caso, o melhor é decidir o que deve ou não ficar na nuvem.” O executivo afirma que o importante é saber que a migração para a cloud deve estar apoiada em um objetivo de negócio e a partir daí buscar soluções. Segundo ele, a decisão de uso de cloud não pode ser colocada à frente das análises e avaliações de riscos.

O executivo de TI da Águia Branca acredita que tudo é uma questão de avaliação, em que entram em jogo a área de atuação da empresa e, em especial, o momento. “Se a companhia está em fase de alavancagem muito forte, talvez seja mais acertado optar pelo modelo de contratação de host dedicado, para que tenha rapidamente infraestrutura para atender ao crescimento.” Ele diz ser natural temer deixar o controle para terceiros, mas questiona: “Quem garante que o data center interno é plenamente seguro? A preocupação com a segurança é a mesma dentro ou fora da nuvem.”

Na Ultragaz, aplicações de missão crítica não irão para a nuvem. É o que afirma o gerente de TI da Ultragaz, Jeferson Chitero. “Na minha visão, tudo o que é commodity pode rodar em um lugar que não sabemos, o que interessa é o resultado final. Mas não as aplicações do core business da empresa”, afirma.

Claudio Soutto Mayor, líder da área de consultoria de TI da Deloitte, diz que grande parte do medo em relação do conceito vem da falta conhecimento. Mas que o ano de 2011 foi de aprendizado, com explosão de palestras e variados eventos sobre o tema. “Por avaliação, acredito que 2012, com os executivos de TI entendendo mais sobre cloud, poderão adotar o conceito com mais segurança. Afinal, todos os riscos podem ser mitigados”, finaliza.

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Fonte: Originalmente publicado por CIO em 17 de dezembro de 2011 às 11h05