fev
24
2012

Brasil quer deixar de ser lanterna em ranking de Cloud Computing

O Brasil tem como sair do fim da fila do ranking mundial da Business Software Alliance (BSA), que analisou 24 nações que apresentam ambientes mais favoráveis para cloud computing. Segundo analistas de mercado, o País pode melhorar o seu desempenho e se tornar atrativo para investimentos nesta área. Basta que o governo se empenhe para reforçar suas políticas e crie um marco regulatório para nuvem, dizem eles.

A pesquisa da BSA divulgada esta semana avaliou o potencial de negócios de cloud computing em 24 países, que juntos respondem por 80% do mercado mundial de Tecnologia da Informação e Comunicação (TIC). O relatório revelou as ameaças que podem comprometer o crescimento desse serviço e alerta os governos para a necessidade de implantação de medidas importantes.

O estudo pontuou as nações abordadas, levando em consideração suas leis e regulamentos para prestação de serviços de cloud. Elas foram classificadas em sete quesitos privacidade de dados; segurança cibernética: controle do cibercrime; preservação da propriedade intelectual, tecnologia de interoperabilidade e harmonização legal; livre comércio; e infraestrutura de TI.

O Japão foi o primeiro colocado por ter apresentado ambiente mais robusto para cloud computing, com 83,3 pontos numa escala de 100. Além do Japão estão entre os top ten Austrália, Estados Unidos, França, Itália, Reino Unido, Coreia, Espanha e Singapura.

Já o Brasil ficou em 24º lugar com 35,1 pontos, o último da fila atrás de países como Vietnã e Tailândia. Perdeu também para os mercados emergentes China, Rússia e Índia.

Onde o Brasil peca

Segundo a BSA, o Brasil experimenta rápido crecimento e reconhece a importância de TIC e da economia digital. No entanto, peca por não ter  implementado ainda leis e regulamentos apropriados para facilitar o desenvolvimento de TIC. O País enfrenta grandes desafios para estabelecer normas nessa área, diz o relatório.

“Nenhuma legislação de privacidade está no lugar”, aponta a pesquisa destacando que o Brasil não tem leis adequadas de privacidade e proteção de dados nem regulamentações contra o cibercrime. Para a BSA, as leis locais penais existentes estão fora de sintonia com as normas internacionais de crimes digitais.

O Brasil apresentou lacunas também na proteção da propriedade intelectual e perdeu ponto por não ter assinado ainda o tratado WIPO Copyright, da Organização Mundial da Propriedade Intelectual (OMPI) sobre o direito do autor. Na avaliação da BSA o País não está atualizado nessa questão para acompanhar a tendência de cloud computing.

A pesquisa menciona que pirataria online no Brasil ainda é grande e os processos são raros. Com esses problemas, a BSA alerta que o País pode terá dificuldade para operar na nuvem, caso não tome providências.

Mas o relatório destacou fatores positivos. Um deles é o Plano Nacional de Banda Larga (PNBL), iniciativa do governo federal para ampliar a infraestrutura e prover acesso internet para população de baixa renda.

Fragilidade das leis

Ao avaliar o desempenho do Brasil no ranking global, Frank Caramuru, diretor da Business Software Alliance no Brasil, considera que o País tem condições de reverter esse quadro e dar um salto. Mas para isso, terá de estabelecer leis que protegem o usuário de computação em nuvem.

“Por enquanto, projetos a esse respeito ainda estão em fase de discussão. Aprovando as garantias legais em questões de segurança, sigilo e acesso, entre outras que envolvem o serviço em nuvem, o Brasil deve se tornar mais atraente para investimentos nesse setor”, afirma Caramuru.

Para o analista da área de Enterprise da IDC Brasil, Anderson Figueiredo, o Brasil e os outros mercados emergentes ainda estão atrasados nas questões de legislação para cloud computing. Eles ainda não criaram o seu arcabouço regulatório e por isso não estão em conformidade com os padrões internacionais.

Já nos mercados desenvolvidos como países da Europa, as leis estão mais e claras aderentes às normas internacionais. “A legislação do Brasil é frágil para questões de segurança, pirataria e privacidade”, diz o analista da IDC. Ele acredita que o País buscará solução para essas barreiras porque a prestação de serviços em nuvem crescerá e o Brasil não vai querer ficar de fora desse jogo.

Figueiredo acha que o Brasil não se ateve ainda para essas questões em razão de os negócios locais estarem aquecidos, sem depender do mercado externo. Mas para venda de nuvem além fronteira precisará atender as normas internacionais.

O analista da IDC pondera que o Brasil tem bons prestadores de serviços com data center de primeira linha, com certificações Tier 3, que obdecem normas de segurança. “Eles sabem o que o mercado quer e atendem as exigências dos clientes internacionais, mesmo que a lei esteja andando do outro lado”, diz.

Para Figueiredo a grande chance do Brasil virar esse jogo é a pressão para sediar a Copa do Mundo e Olímpiadas. Os megaeventos vão obrigar a ampliação de infraestrutura e reforço das políticas. No final das competições haverá um grande legado, que será útil para nuvem.

Cloud na agenda do governo

Na avaliação de Nelson Wortsman, diretor de Infraestrutura e Convergência Digital da Associação Brasileira das Empresas de Tecnologia da Informação e Comunicação (Brasscom), o fraco desempenho do Brasil no ranking da BSA seria preocupante se o País estivesse deixando a situação passar em branco.

“Existe várias frentes para melhorar o ambiente de negócios para cloud computing no Brasil. O grande desafio é fazer com que esse assunto entre na agenda do País e se torne importante”, diz Wortsman. A Brasscom reuniu no ano passado representantes do governo federal e da Comunidade Europeia para discutir a criação de um marco legal para nuvem.

Como resultado desse trabalho, o governo está em fase final de licitação de uma empresa de consultoria para traçar um levantamento de como o Brasil pode melhorar a competitividade em cloud computing. Uma das propostas desse estudo é identificar as condições do País para tornar um hub global de data center para atender demandas na nuvem.

Esse estudo vai avaliar itens como infraestrutura, cenários internacionais e todas as questões regulatórias. O relatório será financiado pela Unesco e está sendo liderado pelos ministérios da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) e das Comunicações (Minicom). O projeto deverá envolver também o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC), já que algumas medidas vão exigir incentivos fiscais.

Segundo Wortsman, deverá ser criado um comitê de cloud interministerial, envolvendo outros órgãos que poderão contribuir na discussão de temas como: soberania de dados, confidencialidade, interoperabilidade e acesso a outros países.

O objetivo dessa iniciativa é preparar o Brasil assuma o papel de prestador de serviços de cloud para o mercado externo, deixando de ser apenas um consumidor de empresas internacionais. Wortsman diz que o País conta com grande oferta de data centers poderá ser um player global de processamento em nuvem por estar com economia estável, ter energia limpa e não apresentar ocorrência de guerras nem de acidentes naturais como terremotos.

Entretanto, o executivo da Brasscom reconhece que o Brasil tem muito trabalho pela frente. Precisa vencer muitas barreiras para se tornar um polo global de data center. Entre os obstáculos estão os altos custos de telecom e de energia elétrica, que espera-se que haja incentivo do governo.

Outro problema é que os centros de processamentos precisaram ter redundância de energia para atender normas internacionais, com a contratação de duas concessionárias de luz, algo impossível em São Paulo, por exemplo, onde há apenas a AES Eletropaulo. Essa é uma aresta a ser resolvida governo.

 Os cronogramas para o plano de ação do governo federal para cloud computing ainda não foram definidos. Wortsman argumenta que as questões de regulamentações são mais demoradas, pois seguirão o ritmo do Congresso Nacional. Sua expectativa é que até o final desse ano seja definida uma agenda de trabalho nessa área.

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Fonte: Originalmente publicado por ComputerWorld em 24 de fevereiro de 2012 – 07h30